
Estava sozinha a um canto da esplanada quase deserta. O vento daquele fim de tarde, assim como o sol, eram de uma serenidade que nos afagava os gestos, as palavras e até os pensamentos. Esta é a altura em que a ria ganha aquela tonalidade única, sem sombras, apenas o brilho alaranjado do sol que pousa no balouçar dos barcos de várias espécies e tamanhos.
Estava sozinha, olhar distante, num rosto carregado de sol, salpicado aqui e li de pequenos pontos brilhantes da areia branca vinda daquela praia linda, mesmo do outro lado da ria.
Só de olhar era fácil imaginar o sabor de mar que vinha impregnado naquela pele brilhante. Era fácil imaginar o cheiro dos cabelos, quase soltos por uma fita colorida, que os protegia da calmaria do vento morno de fim de tarde. Era fácil pensar o corpo por baixo do algodão fino de cores fortes e a forma dos seios pendentes de desejo.
Fosse eu um qualquer realizador medíocre de cinema e aqui estava a minha musa! Acto contínuo, pensei: afinal era isto que me apetecia ter dito. Sem mais!
Até porque, aquele olhar distraído nas cores da Ria Formosa, aquele olhar de sabor a mar, tinha, como por acaso, encontrado o meu.